A gestão sustentável dos resíduos sólidos


Manfred Fehr

Ser criativo significa olhar o mesmo objeto ou o mesmo processo que todo o mundo olha, e ver algo bem diferente, algo que os outros não vêem. Alguns anos atrás, o aterro municipal de Toribaté era visto por todos como um lugar perfeito para depositar os objetos que a gente jogava fora. Era fácil. Bastava colocar todos os resíduos da residência em um saco plástico e deixar na calçada, e acabou. Essa é a maneira de encarar o lixo, da grande maioria dos moradores de nossas cidades até hoje.

De repente a tal expressão de sustentabilidade apareceu na mídia, e comecei a pensar o que significava para mim e para meus descendentes. Cheguei a uma conclusão assustadora. Se eu continuasse a jogar o lixo no aterro, algum dia o aterro ficaria cheio e seria necessário construir outro, e logo outro até a cidade ter um cinturão de aterros ao invés das áreas verdes que tem hoje. Pronto, que qualidade de vida deixei a meus filhos, netos e bisnetos? Nenhuma. Entendi a noção da sustentabilidade. Era simples. Significava viver e usar os recursos da Terra de tal forma que meus descendentes tivessem a mesma qualidade de vida e as mesmas oportunidades que eu tive.

Como eu iria conseguir?

Aos poucos, apareceram as respostas. Ainda são incipientes, mas indicam o caminho. Envolvi meus colegas do grupo de pesquisa e começamos a olhar o aterro com outros olhos. Víamos nele aquele monstro que se estendia pela cidade e que ocupava os terrenos nobres, um atrás do outro. Precisávamos matar o monstro. Era evidente, mas como? Vou explicar e espero que tenha gente querendo imitar.

O alvo de nosso trabalho: Reduzir significativamente o volume do aterro.

O caminho do alvo: Criar novos paradigmas em torno da gestão do lixo e difundi-los entre os moradores.

As propostas específicas eram e ainda são: novo vocabulário, novos conceitos de composição e de utilidade, novos métodos de coleta e de processamento, novos conhecimentos sobre aprendizagem, novas metas a respeito do destino final, e encarar o desafio de reduzir o tamanho do aterro em 85%. Isso significa que um aterro municipal projetado para uma vida útil de 22 anos, por exemplo, teria 145 anos de vida porque receberia anualmente apenas 15% dos rejeitos previstos no projeto.

Qual o melhor modelo gerencial?

Novo vocabulário
A palavra lixo foi riscada do dicionário. Ela tem conotação de desprezo. Ela foi substituída pelo termo mais otimista: material em trânsito, que veicula a idéia da reutilização. Tal idéia vem ao encontro da relatividade das visões. Objetos ou material que para mim não têm mais uso, podem ter uso para outras pessoas ou entidades, e a noção da sustentabilidade requer de mim, disponibilizar tais objetos aos possíveis usuários da melhor forma possível. Não é necessário que eu saiba quem são ou que fazem com o material. Basta proporcionar a oportunidade.

Novos conhecimentos sobre aprendizagem

Eles também decorrem de pesquisas originais já realizadas. Qual é o desafio e qual é o caminho de sucesso? O desafio é o de convencer a todos os moradores da conveniência e da importância de separar o material em trânsito nas duas parcelas indicadas: putrescível e inerte, ou úmida e seca, conforme as preferências. O caminho de sucesso é o de saber quanto esforço e quanto tempo são necessários para chegar ao resultado esperado da separação.

Para tal, desenvolvemos a curva de aprendizagem de leigos. É a ferramenta fundamental da gestão de resíduos, é original e funciona. Ela nos diz, por exemplo, que uma cidade de 150.000 habitantes que quiser alcançar 85% de separação diferenciada nas residências, precisa aplicar 82 pessoas-anos de acompanhamento. Isso significa que com 82 agentes, a meta seria atingida em um ano, com 41 agentes, em dois anos e com 20 agentes em quatro anos. Não resta ilusão, é trabalho duro e longo. O valor da tal de sustentabilidade vai fornecer a justificativa do esforço.

Novas metas a respeito do destino final

Hoje existem concessionárias que recolhem o lixo nas ruas e o processam em uma usina de separação, ou simplesmente o aterram. A nova meta é mais pragmática. A administração pública encarrega-se de implantar o PDR e de levar o material em trânsito até um galpão cuja infra-estrutura ainda será definida. Termina aqui a intervenção pública e o gasto de dinheiro público. Com as duas parcelas chegando separadas, ou quase, o processamento é deixado para a iniciativa privada que encontrará meios de tirar lucro do material em trânsito. Os 15% de material não aproveitável serão aterrados. O custo? 15% do que se gasta hoje com aterrar todo o lixo.

Todas as idéias aqui expostas e os resultados alcançados em Toribaté já foram publicados e estão disponíveis na literatura do ramo. Basta solicitar. O modelo de gestão está bem avançado. O primeiro município candidato a imitar o modelo de Toribaté já se manifestou. Estamos disponíveis para expor o modelo a grupos interessados. Não temos dúvidas: o risco de colapso de muitos municípios é tamanho que não há tempo a perder. Todos vão precisar de um modelo gerencial funcional para resíduos sólidos e para outros componentes da vida urbana, e todos vão precisar conhecer as exigências de aprendizagem correspondentes. O modelo pode ser o nosso, ou outro melhor se tiver, e em todos os casos, a curva de aprendizagem dimensionará o esforço requerido.






Mestrado em Recursos Hídricos deve fortalecer gestão em todo o país.

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Qual é a novidade desse raciocínio?
As atitudes atuais, tradicionais, clássicas e ultrapassadas, dos gestores de resíduos são as de querer explicar a todo o mundo que o rejeito de vidro azul tem tal uso, que o rejeito de papel jornal tem tal uso, que o rejeito de plástico mole tem tal outro uso e que por isso é importante separar todos esse itens em sacos diferentes. As amas-de-casa são leigas no assunto. Não entendem e conseqüentemente, poucas colaboram. Nosso modelo de gestão dirige-se especificamente a pessoas leigas, como por exemplo às amas-de-casa. Convidamos elas a aceitarem a idéia de que tudo que jogam fora será usado novamente por outras pessoas ou entidades, e portanto, que convém tratar com carinho seu material em trânsito; olhá-lo não como lixo, mas sim como material que serve a mais alguém.


Composição e utilidade
O tal de material em trânsito é composto por apenas quatro componentes facilmente identificáveis por gente comum: material putrescível, alimentos desperdiçados, embalagens recicláveis e material inerte sem novo uso à vista. Esse conceito simples ajuda as amas-de-casa a lidarem com seu material em trânsito. Não é preciso memorizar dezenas de componentes tais como: plástico duro, plástico mole, vidro claro, vidro colorido, papel branco, papel jornal, papel cartonado e assim por diante.

Ajuda também, quase que inconscientemente, a pensar duas vezes antes de descartar um alimento que não serviu. Para os gestores, essa maneira de citar a composição indica imediatamente as necessidades de logística e de destino. Finalmente, levamos a simplificação mais longe e juntamos as duas primeiras parcelas que chamamos de material úmido, e juntamos as duas últimas parcelas que chamamos de material seco.

Coleta e processamento
É fácil entender, mesmo para leigos, que o material em trânsito pode ser separado em duas parcelas sem grande esforço: a parcela putrescível (úmida) e a parcela inerte (seca). Se conseguirmos manter essas duas parcelas separadas desde o início até o fim do trajeto entre a residência e a usina de separação, podemos desviar 85% do material do aterro e assim reduzir o volume do aterro em 85%!!!
Como assim?
Em nosso contexto social, a parcela putrescível representa 70% do material em trânsito. Todo esse material pode ser compostado e usado de novo. Aproximadamente metade da parcela inerte consiste de embalagens recicláveis que, quando separadas adequadamente, encontram compradores. O que restou para aterrar?
A outra metade da parcela inerte que é 15% do total. Fechou? Bom, esse era um cálculo aproximado para indicar as oportunidades. Já dispomos de resultados de pesquisa mais detalhados, mas não é aqui o lugar adequado para entrar em detalhes. Queríamos apenas veicular nossa idéia e as chances de sucesso. O nome que inventamos para o processo de separação em duas parcelas é Processamento diferenciado de resíduos (PDR). Na literatura inglesa onde publicamos nossos resultados, o termo é Divided Waste Processing (DWP), uma contribuição original nossa. O modelo gerencial correspondente detalha as atividades e a logística para disponibilizar, coletar e processar as duas parcelas separadamente.

Autor
Este modelo foi elaborado e aplicado pelo grupo de pesquisa do professor M.Fehr. Participaram os pesquisadores M.S.M.V.d.Castro, V.H.Kuranishi, M.d.R. Calçado e D.C. Romão. Maiores detalhes disponíveis sob solicitação de Manfred Fehr, professor, Universidade Federal de Uberlândia,
fehrsilva@lycos.com.


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Editora: Jornalista Cecy Oliveira